Seringueira, apogeu e declínio de uma era

Epopéia da borracha brasileira desde os aborígenes até os nossos dias, passando pelo período áureo (1870-1011), contrabando das sementes da Hevea brasiliensis para Indonésia, “Soldados da Borracha”, projeto Ford na região do Tapajós e pela atualidade do produto na Amazônia e no Mundo

O Brasil muito deve a sua rica flora, inclusive a origem de seu nome, o Pau Brasil. O cafeeiro, arbusto da família Rubiaceae e do gênero Coffea, originário da Etiópia, teve também grande importância econômica no país, mas foi uma árvore genuinamente brasileira que marcou época e fez história – a seringueira (Hevea brasiliensis). Dessa espécie da família Euphorbiaceae extrai-se o látex para produzir borracha natural e que teve um enredo semelhante à corrida do ouro norte-americana e sustentou um dos mais importantes ciclos de desenvolvimento do Brasil (1870-1920).

A borracha natural da Amazônia foi o principal produto nacional e o sustentáculo da economia brasileira durante 50 anos, responsável por 25% da exportação do Brasil, quando o Acre chegou a ser o terceiro maior contribuinte tributário da União. Graças a ela foi possível povoar e trazer progresso para a Amazônia, “período áureo” que findou em 1910, quando entrou no mercado as exportações do produto das colônias britânicas, cujas sementes foram contrabandeadas pelos britânicos, em 1876, plantadas mais tarde em suas colônias na Ásia (Malásia, Ceilão e Cingapura).

A seringueira é também chamada de seringa, seringa-verdadeira, cauchu, árvore-da-borracha, seringueira-preta (no Acre) e seringueira-branca. Existem na floresta amazônica pelo menos 11 espécies de seringueiras, todas do mesmo gênero. Possuem folhas compostas, flores pequeninas e reunidas em amplas panículas, com fruto em uma grande cápsula. Sua madeira é branca, leve e de baixa durabilidade natural, podendo ser empregada para tabuado, forros e caixotaria. Mas seu maior valor reside no látex, extraído do seu tronco e transformado em borracha de excelente qualidade, pois além de revolucionar a história da indústria automobilística com a fabricação de pneus de borracha, o látex possui mais de 33 mil utilizações diferentes, inclusive propriedades curativas, que é a grande novidade do momento. As amêndoas (sementes) fornecem óleo secativo muito usado na indústria de tintas e vernizes.

A Hevea brasiliensis é uma árvore originária da bacia hidrográfica do rio Amazonas, onde existia em abundância e com exclusividade, características que geraram o extrativismo e o ciclo da borracha, período da história brasileira de muita riqueza e pujança para a região amazônica, até que grandes hortos fossem plantados para fins de exploração em outros países. A espécie também foi introduzida na Bahia por volta de 1906, o que mostra grande adaptabilidade aos mais variados ambientes.

No Brasil, atualmente, além da área tradicional da região amazônica, a heveicultura tem abrangência em outros estados, sendo também cultivada em Góias, Mato Grosso do Sul, Pernambuco, Maranhão, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Paraná, São Paulo e Minas Gerais. No Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba estão concentradas as maiores plantações do Estado de Minas Gerais, alcançando boa produtividade. Do ponto de vista social, a heveicultura é muito importante, principalmente na fixação do homem ao campo, pois produz o ano todo.

Alternativas – Após o segundo surto da borracha durante a segunda guerra mundial, os ditos “Soldados da Borracha” nunca conseguiram voltar para a terra deles, porque jamais foram pagos pelos seringalistas e nem o governo cumpriu suas promessas de os tratar com os mesmos direitos dos ex-combatentes. Pressionados pela desvalorização da borracha, os seringueiros ficaram entregues à própria sorte. Muitos se aventuraram ao êxodo rural, engrossando a multidão de miseráveis das periferias das cidades. Outros sobrevivem até hoje cultivando a terra, caçando e vendendo borracha por um preço muito baixo.

A partir de 1970 aconteceu o pior: chegaram os fazendeiros na Amazônia, expulsando os seringueiros, derrubando a floresta e assim iniciando os conflitos de terra. Sob esta ameaça, os seringueiros começaram a se unir em cooperativas e sindicatos, surgindo grandes lideranças como Chico Mendes, assassinado em 1988. Nesses conflitos, os seringueiros se mostraram como guardiões da floresta e, hoje, a convivência deles com a mata serve de exemplo, mostrando que o homem pode viver da natureza sem destruí-la.

Para incentivar a permanência dos seringueiros na floresta era necessário encontrar formas de beneficiamento do látex mais rentáveis, surgindo o couro vegetal como uma alternativa. Os seringueiros desde o inicio aproveitaram o látex para confeccionar artigos para uso próprio como a bolsa “capanga”, sapatos de seringa e o saco encauchado, um tecido de algodão banhado em látex, defumado e vulcanizado em estufas especiais.

Em 1978, Wilson Manzoni, artesão paulista, chegou a Rio Branco do Acre, onde conheceu o “padrinho” Sebastião Mota de Melo, seringueiro e líder comunitário, com quem conviveu e aprendeu os mistérios da seringa. Wilson foi pioneiro na comercialização do artesanato feito de seringa como o sapato vulcanizado, valorizando e levando o produto para a cidade, abrindo mercado nas lojas de artesanato como souvenir.

Influenciado pela mobilização provocada pela morte de Chico Mendes foi criada a primeira loja no Brasil especializada em produtos ecológicos, a EcoMercado, no Rio de Janeiro, onde foi apresentado um saco encauchado, um tecido impermeável tradicionalmente usado pelos seringueiros como embalagem para transporte de látex e bagagens pessoais. Em maio de 1992 foram lançadas as primeiras peças confeccionadas com esse tecido emborrachado. Os anos seguintes foram, principalmente, dedicados à pesquisa e ao desenvolvimento da tecnologia de produção. Em 1994 foi criado um processo exclusivo de vulcanização da borracha, adaptado à realidade dos seringais nativos.

Desde 1991, a produção do Treetap® é uma alternativa econômica para populações seringueiras, contribuindo para a valorização de suas culturas tradicionais e para preservação e uso sustentável da biodiversidade de terras indígenas e reservas extrativistas. Na Floresta do Tapajós, município de Belterra, a comunidade Maguari está envolvida na produção de artefatos de couro vegetal, possuindo grandes variedades do produto. A comercialização é feita pelos próprios produtores, apoiados por organizações não governamentais.

Até uns 15 anos atrás, o couro vegetal era conhecido como um mero subproduto da borracha, que em fins do século XIX e primeira metade do XX, tivera serventias restritas às necessidades dos seringueiros. Hoje, o couro vegetal é visto de outra forma, incorporado à economia do mundo da moda como matéria-prima para confecção de modernas roupas, bolsas, bonés, sapatos, capas de agendas e acessórios diversos.

Londres, Nova York, Rio de Janeiro e São Paulo são megacidades onde produtos feitos de couro vegetal vestem e adornam pessoas da alta à baixa sociedade, conquistando um espaço em processo de expansão, não só pela boa aceitação, como pela sua grande dimensão social e ecológica e pelo manejo sustentado da floresta.

Breve história – Não se pode falar da seringueira, objeto da matéria, sem mencionar a borracha, seu famoso subproduto. Os índios já a conheciam bem antes do descobrimento da América, conforme relatos da época. Em 1525, D’Anghieria relatou ter visto os índios mexicanos jogarem com bolas elásticas e Charles de La Condamine foi o primeiro a fazer estudos científicos sobre ela, espécie que conhecera durante viagem ao Peru, em 1735, como “um óleo resinoso condensado”.

O primeiro emprego industrial da borracha foi como apagador, o que denominou o nome do produto da seringueira e o difundiu como india rubber, por Magellan, que significa “raspador da Índia”. A palavra borracha foi utilizada nas primeiras aplicações úteis deste produto, dada pelos portugueses, quando foi utilizada para a fabricação de botijas, em substituição às chamadas borrachas de couro que os portugueses usavam no transporte de vinhos.

Pierre-Joseph Macquer, químico Frances e membro da Real Academia Sueca de Ciências, retomando os trabalhos de La Condamine, pela primeira vez indicou o modo de fabricação de tubos flexíveis de borracha. Desde então numerosos artesãos se interessaram pela borracha: o ourives Bernard, o boticário Winch, Grossart, Landolles, e outros. Em 1820 um industrial inglês, Nadier, fabricou fios de borracha e procurou utilizá-los em acessórios de vestuário. Por essa época começou a reinar na América a febre da borracha: os calçados impermeáveis dos índios faziam sucesso.

Após tentar desenvolver, por longo tempo, um processo para o melhoramento das qualidades da borracha e ser levado à ruína, Goodyear descobriu acidentalmente, em 1840, a vulcanização. Um fato curioso: em 1815, l Hancock, modesto serralheiro, tornou-se um dos maiores fabricantes do Reino Unido. Ele havia inventado um colchão de borracha e, associado a Mac Intosh, fabricava as famosas capas impermeáveis “Mac Intosh”. Além disso, havia descoberto e realizavaindustrialmente o corte, a laminação e a prensagem do produto, pois tinha verificado a importância do calor na prensagem e construído uma máquina para este fim.

Em 1845, R.W. Thomson inventou o pneumático, a câmara de ar e até a banda de rodagem ferrada. Cinco anos depois fabricavam-se brinquedos de borracha, bolas ocas e maciças (para golfe e tênis). A invenção do velocípede por Michaux, em 1869, conduziu à invenção da borracha maciça, depois da borracha oca e, por último, à reinvenção do pneu, pois a invenção de Thomson havia caído no esquecimento.

Finalmente, Bouchardt realizou a polimerização do isopreno, entre 1879 e 1882, obtendo produtos com propriedades semelhantes à borracha. O primeiro pneumático para bicicleta data de 1830 e, em 1895, Michelin teve a ideia audaciosa de adaptar o pneu ao automóvel. Desde então a borracha passou a ocupar um lugar preponderante no mercado mundial, como a importante matéria-prima da civilização moderna, despertando a curiosidade dos químicos para conhecer sua composição e sua síntese.
Desde o século XIX vêm sendo feitos trabalhos com esse objetivo, logo se esclarecendo que a borracha é um polímero do isopreno. Os russos e os alemães foram os pioneiros nos trabalhos de síntese da borracha, mas os produtos obtidos não suportaram a concorrência da borracha natural. Somente com a Primeira Guerra Mundial a Alemanha, premida pelas circunstâncias, teve de desenvolver a industrialização de seu produto sintético. Foi o marco inicial do grande desenvolvimento da indústria de borrachas sintéticas, ou elastômeros, no mundo.

Epopéia amazônica – Segundo Eduardo de Araújo Carneiro, licenciado em História pela UFAC e especialista em Lingüística e Literatura da Amazônia, “devido suas múltiplas aplicações, principalmente na indústria automobilística em expansão, a borracha obtida a partir do látex das seringueiras, tornou-se produto mundialmente valorizado. Seringueiras não faltavam na Amazônia brasileira e isto levou a região Norte do Brasil, uma das mais pobres e desabitadas do país, a experimentar período de grande prosperidade.

Interessadas na exploração dos seringais da região, grandes empresas e bancos estrangeiros instalam-se nas cidades de Belém e Manaus. A capital amazonense torna-se o centro econômico do país. Ganha sistemas de abastecimento d’água, luz elétrica, telefone, grandes construções, como o Teatro Amazonas, até hoje símbolo da riqueza advinda da borracha. Milhares de imigrantes, principalmente nordestinos fugidos da seca da década de 1870, invadem a floresta para recolher o látex e transformá-lo em borracha.

A produção amazônica chega a 42 mil toneladas anuais e o Brasil domina o mercado mundial de borracha natural. Esse clima de euforia dura até 1910, quando a situação começa a mudar: a partir daquele ano entram no mercado as exportações de borracha a partir das colônias britânicas e o Brasil não suporta a feroz concorrência que lhe é imposta. Em 1876, os ingleses haviam contrabandeado sementes de hevea brasiliensis da Amazônia para o Jardim Botânico de Londres. Lá, por meio de enxertos, desenvolvem variedades mais resistentes, que posteriormente são enviadas para suas colônias na Ásia – Malásia, Ceilão e Cingapura – onde tem início uma exploração intensiva da borracha natural.

A diferença técnica de plantio e extração do látex no Brasil e na Ásia foi determinante para os resultados da exploração como negócio. No Brasil, o governo resistia a mudar os métodos. Acreditava que a exploração da maneira que era feita assegurava a presença de brasileiros e garantia a soberania nacional sobre a despovoada região amazônica. Privilegiava-se a geopolítica, representada pela ocupação, em detrimento da geoeconomia que poderia render melhores frutos.

A relativa imobilidade custou caro para o país: as exportações brasileiras perderam mercado. Não suportaram a concorrência da borracha extraída na Ásia, muito mais barata. Como consequência, a produção entrou em declínio. Chegava ao fim o período de prosperidade vivido pela extensa região Norte do Brasil. As empresas que haviam se instalado em Manaus e Belém saíram em busca de outras regiões mais produtivas. Os imigrantes voltaram para suas terras. Os grandes nomes das artes mundiais já não se apresentavam no Teatro Amazonas. A opulência cristalizara-se em História.
No final dos anos 20, o Brasil ainda tentaria uma reação com a ajuda de um parceiro inusitado: o industrial norte-americano Henry Ford, idealizador de uma nova forma de produzir que marcaria a indústria para sempre – a linha de montagem – e responsável, na época, por 50% da produção mundial de veículos. Com a intenção de acabar com o controle do mercado de borracha – a preciosa matéria-prima dos pneus – pelas colônias inglesas do Sudeste Asiático, Ford plantou nada menos que 70 milhões de mudas de seringueira numa área de um milhão de hectares em Belterra e Fordlândia, no Estado do Pará.

O ambicioso projeto foi logo batizado pelos moradores da região como Fordlândia. O norte-americano pretendia produzir 300 mil toneladas anuais de borracha natural, quantidade que representava a metade do consumo mundial. Mas sucumbiu às adversidades e ao ambiente hostil da floresta amazônica. Abandonou tudo, amargando enorme prejuízo.

Neste contexto a Ásia dominou o suprimento mundial de borracha natural, com mais de 90% da produção. Mudanças importantes, no entanto, têm redistribuído a produção entre os principais concorrentes. A Malásia, que em 1985 respondia por 1/3 da produção mundial, reduziu sua participação. Isso decorreu da mudança no seu perfil de produção, que passou a dar ênfase em investimentos não-agrícolas. A Tailândia ocupou o lugar de maior produtor mundial. A Indonésia – com vantagens de área e de mão-de-obra disponíveis – tem mantido participação relevante na produção mundial desde a década de 80.
Outros países que vêm se valendo, com sucesso, do potencial de mão-de-obra barata e disponibilidade de terras para crescimento nesse setor são a Índia e a China. O consumo de borracha natural representou, em 2001, apenas cerca de 40% do total da borracha consumida no mundo”.

Soldados da Borracha – Com a eclosão da II Grande Guerra, os japoneses cortaram o fornecimento de borracha para os Estados Unidos, o que fez milhares de brasileiros do Nordeste serem novamente enviados para os seringais amazônicos, em nome da luta contra o nazi-fascismo, a obscura e sem gloria “Batalha da Borracha”, que ainda vive na memória de seus últimos e abandonados sobreviventes. Uma história de imensos sacrifícios para milhares de trabalhadores que foram para a Amazônia no afã de trabalhar e sobreviver, 30 mil dos quais desapareceram na selva amazônica. Eram os primeiros “soldados da borracha”, simples retirantes que superlotavam com suas famílias todo o Nordeste, fugindo de uma seca interminável que os reduzia à miséria.

Na verdade, os malsinados “soldados da borracha” foi a segunda grande leva de nordestinos que chegaram a Amazônia para produzir borracha natural. A primeira (1870-1920) trouxe cerca de 100 mil pessoas, em grande maioria nordestinos retirantes das grandes secas da década de 1870, com sua mão-de-obra barata para extrair o látex da seringueira e enriquecer agenciadores, coronéis donos das terras, regatões, arrendatários dos seringais, transportadores do produto e empresas exportadoras, sina semelhante de seus sucessores da década de 40.

Fonte: Apolonildo Britto*

(Matéria publicada na revista Amazon View)

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