Archive Janeiro, 2008

Seringueira pode reforçar agronegócio mineiro

Minas Gerais tem as condições naturais e uma posição geográfica privilegiada para incorporar o cultivo da seringueira, em grande escala, às atividades do agronegócio. A borracha que se extrai da planta é um material cada vez mais necessário ao planeta, sobretudo com redução mundial das reservas de petróleo. As possibilidades do cultivo em praticamente todo o território mineiro são confirmadas por estudos realizados, nos últimos quatro anos, pela Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), vinculada à Secretaria da Agricultura do Estado.

De acordo com o pesquisador Antônio de Pádua Alvarenga, que coordena o projeto “Avaliação da capacidade dos clones de seringueira de Minas Gerais”, no Centro Tecnológico Zona da Mata da Epamig, em Viçosa, a exploração da atividade pode beneficiar inclusive agricultores familiares. “São necessárias apenas quatro pessoas para cultivar cerca de cinco hectares de seringueira, que podem garantir uma renda mensal da ordem de R$ 3 mil”, ele estima. “O exemplo vem da Índia, onde um volume cada vez maior de pequenos produtores vinculados a cooperativas se dedicam ao cultivo de seringueiras em áreas de até um hectare.”

As condições favoráveis à produção de seringueira em Minas são confirmadas por pesquisas da Epamig nas fazendas experimentais de Oratórios e Leopoldina, na Zona da Mata. Segundo Alvarenga, os experimentos serão realizados nas demais estações experimentais da empresa espalhadas pelo Estado. “Os principais fatores favoráveis à cultura, no Estado, são a boa localização e a disponibilidade de água”, explica o coordenador. “A região Norte, algumas áreas da Zona da Mata e a parte do Sul de Minas mais próxima da divisa de São Paulo apresentam uma relativa exceção, com problemas de cultivo que, no entanto, podem ser corrigidos com irrigação”, ele ressalva.

Segundo Alvarenga, o cuidado principal deve ser evitar áreas sujeitas às geadas. “O cerrado mineiro é a região que apresenta as melhores condições para a seringueira, com destaque para o Triângulo, tem um clima excepcional, entre os melhores do Estado, sobretudo com um bom regime de chuvas”.

Alvarenga acrescenta que, apesar dos resultados obtidos com a produção orientada por técnicos, usando adubação correta e proteção contra eventuais pragas, Minas Gerais tem pouca exploração de seringueira. “Contamos com cerca de 3 mil hectares em produção, enquanto o Brasil dispõe de 105 mil hectares, e no mundo inteiro a cultura está espalhada em mais de 9 milhões de hectares. Há condições de desenvolver a cultura no Estado, apesar de as características climáticas serem bem diversas das predominantes na região Amazônica, que é quente e úmida.”

Ele considera comum o paradoxo de diversas plantas se desenvolverem bem, ou até melhor, em regiões com situação climática diferente das registradas em suas áreas de origem. Este é o caso, segundo o pesquisador, de produtos como a uva, a maçã e o café. “Enquanto as seringueiras das selvas são beneficiadas pelo controle natural de pragas, aqui podemos trabalhar com novas variedades, mais resistentes”, explica.

DEMANDA FORTE

Segundo o coordenador do projeto de desenvolvimento da cultura da seringueira em Minas, os produtores do Estado podem se beneficiar, em primeiro lugar, do crescente consumo de borracha no Brasil. Terão também a possibilidade de participar das exportações, inclusive ocupando parte do espaço deixado pelos grandes produtores da Ásia, que em futuro próximo deverão vender o produto transformado, portanto com cotação mais alta.

Alvarenga informa que o crescimento da demanda por borrachas no Brasil (6,06% ao ano) foi mais acelerado do que o mundial (4,16% ao ano). “Enquanto isso, o ritmo de crescimento da produção de borracha natural no Brasil (4,81% ao ano) em relação ao mundial (6,03% ao ano) mostra o país perdendo espaço na expansão da heveicultura como um todo”.

O levantamento do Centro Tecnológico da Epamig na Zona da Mata revela também que as importações brasileiras ultrapassaram 200 mil toneladas em 2007, volume equivalente ao dobro da produção nacional. O gasto com essas aquisições foi superior a US$ 300 milhões. “Portanto, a borracha natural brasileira atende apenas a um terço da necessidade da indústria consumidora local, o que indica um enorme potencial de mercado”, enfatiza o coordenador.

Em Minas Gerais, no período de janeiro a julho de 2008 as importações de borracha alcançaram 40,2 toneladas, contra 60,5 toneladas no mesmo período de 2007. Os dados são do Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior e foram organizados pela Superintendência de Política e Economia Agrícola da Secretaria da Agricultura do Estado.

Segundo o superintendente João Ricardo Albanez, a cotação do produto no mercado internacional dobrou de US$ 12,00 para US$ 24,00 o quilo. “As exportações de borracha por Minas Gerais ainda são irrelevantes, mas a demanda interna é muito alta e a cotação obtida pelo produto no exterior dita os preços no Brasil”, ele destaca.

De acordo com o IBGE, a produção de cerca de 4,5 mil toneladas anuais de borracha anual, em Minas Gerais, está distribuída em nove regiões: Central, Rio Doce, Zona da Mata, Sul de Minas, Triângulo, Alto Paranaíba, Centro-Oeste, Noroeste e Jequitinhonha. O rendimento médio das seringueiras nessas regiões varia de 750 a 2,8 mil quilos por hectare, sendo os melhores resultados obtidos nas áreas do Centro Oeste e no Alto Paranaíba. O Triângulo Mineiro se destaca com a maior produção, de cerca de 3,5 mil toneladas anuais.

AGRICULTURA FAMILIAR

O produtor Laércio Makoto Kanno e seu pai, Minoro, estão entre os pioneiros no cultivo de seringueira em Frutal, no Triângulo, com plantios iniciados em 1981 no distrito de Aparecida de Minas. Atualmente, eles contam com 45 hectares de seringueiras, cerca de 23 mil árvores, que produzem 8 quilos de borracha por ano cada uma. Todo o trabalho nas plantações é realizado por pai e filho mais seis ajudantes. “Essa atividade é indicada para a agricultura familiar porque possibilita a concentração de um trabalhador para cada 2,5 mil árvores e garante receita crescente, porque o consumo de borracha é alto”, explica Laércio.

Laércio informa que a borracha tem cotação firme no mercado internacional. “Os preços estavam bem altos no final dos anos 80, depois uma grande oscilação a partir de meados dos anos e até três anos atrás o mercado estava ruim, mas ocorreu a recuperação e atualmente podemos dizer que o negócio remunera bem”, explica. Segundo o produtor, “o mercado é livre e muito concorrido, com diversos compradores.”

Ele enfatiza que a receita compensa os investimentos: “O custo de produção é da ordem de 10% e está concentrado na fase inicial do cultivo, tendo maior peso o adubo, porque seus componentes são importados”, acrescenta. No período das águas é preciso fazer três adubações, e para diminuir os gastos com adubo importado, Laércio diz que vai fazer este ano uma experiência com a cama de frango (resíduos de ração, penas e de dejetos das aves) numa nova área de cultivo de 2,5 mil árvores na Fazenda Lageadinho.

O produtor explica que um dos cuidados com as árvores novas deve ser o controle das ervas daninhas. “É necessário também proteger as plantas de pragas como o ácaro e a mosca-da-renda”. E nesse caso também a Fazenda Lageadinho vai recorrer a produto alternativo. “Para atacar a mosca vamos substituir os defensivos químicos pelo controle biológico”, diz Laércio. Ele acrescenta que, atualmente, a Fazenda Lagedinho está concentrada no cultivo de seringueiras, porque predominam as plantas em plena produção, com cerca de oito anos e tronco com 40 centímetros de perímetro, no mínimo. “Até o terceiro ano de cultivo havia plantios consorciados de milho, soja e abacaxi, que também deram bons resultados”, assinala o produtor. “Pode-se fazer ainda o consórcio com café, a exemplo de muitas propriedades paulistas dedicadas aos seringais.”

PRODUTO VERSÁTIL

A borracha natural é valorizada por sua plasticidade, resistência à fricção, impermeabilidade a líquidos e gases e isolamento elétrico. Por isso é utilizada na fabricação de mais de 50 mil artigos. Além da extração da borracha, pode-se aproveitar o óleo da semente da seringueira, usado na indústria de tintas e vernizes e mel. A madeira da seringueira também constitui boa fonte de renda para os produtores.

“Por isso, os produtores que interessados em investir na atividade ou ampliar suas áreas de cultivo podem contar com um mercado que só aumenta”, diz Antônio de Pádua Alvarenga. Segundo o coordenador do projeto Avaliação da capacidade dos clones de seringueira de Minas Gerais, “somos o país de origem dessa cultura e o mais apto do mundo, em área e em extensão, para atender à demanda de borracha natural”. Ele destaca que, além da possibilidade de geração de renda para o produtor, os plantios de seringueira dão uma importante contribuição para a preservação ambiental fazendo seqüestro de carbono. “Por isso, no Estado de São Paulo a seringueira é considerada cultura de reserva legal”, finaliza.

Fonte: www.agrosoft.org.br (08/2008)

Postado em 17/01/2008

Rainha da Borracha

Como a Michelin espera se tornar uma das maiores produtoras de Làtex do Brasil e garantir suprimento de matéria-prima

BOCKIAU, DIRETOR: “Era um projeto econômico e virou um projeto de desenvolvimento sustentável”

Em 1984, quando a Michelin comprou os nove mil hectares de terra da Bridgestone Firestone, em Igrapiúna, na Bahia, a fabricante de pneus francesa pensou ter encontrado o pergaminho que a levaria à descoberta de um tesouro. A idéia era transformar as terras em um dos maiores pólos de produção de látex do País e assim atender à demanda de suas duas fábricas no Brasil. Com isso, reduziria a dependência das importações, responsáveis por dois terços do fornecimento da matéria prima para a filial brasileira. No entanto, a proliferação da praga da seringueira mudou os planos da Michelin. Importar borracha se tornou mais rentável do que continuar com a plantação. Se a gigante francesa conseguisse vencer a batalha contra a praga, estaria não só agregando um forte valor às suas terras como também criaria uma geração de seringueiras mais resistentes.

Mais: isso reduziria seus custos, pois o principal insumo estaria mais próximo das unidades fabris. “Além disso, temos certeza da procedência do produto”, explica o belga Gérard Bockiau, diretor-geral das Plantações Michelin da Bahia, há 12 anos no Brasil. Foi com base nesse raciocínio que nasceu o Ouro Verde Bahia, uma mistura de projeto de fornecimento garantido com responsabilidade social.

DO LÁTEX PARA A BORRACHA: até 2015, a Michelin aumentará a produção de borracha em cinco mil toneladas

Em 2003, a Michelin dividiu cinco mil hectares de suas terras em 12 propriedades médias e as entregou para funcionários da empresa, que deixaram seus cargos para se dedicar ao negócio. Em troca, a Michelin se comprometeu a comprar toda a borracha por eles extraída. Cerca de três mil hectares foram destinados à criação de uma reserva ecológica. Ao mesmo tempo, a companhia, em parceria com o Cirad, Centro de Cooperação Internacional em Pesquisa Agronômica para o Desenvolvimento, da França, passou a se dedicar à criação de uma seringueira mais resistente aos fungos. A Michelin também percebeu que para crescer seria necessário investir no desenvolvimento sustentável da região de Igrapiúna, um dos municípios mais pobres do País. Daí surgiu o programa de apoio à agricultura familiar. A empresa, com o respaldo financeiro do Banco do Nordeste, se comprometeu a ajudar famílias carentes a plantar seringueira. As mudas são vendidas a preço de custo e um profissional faz visitas constantes para orientar o plantio. Toda a borracha é adquirida pela Michelin. “Como a seringueira demora sete anos para iniciar a produção de látex, incentivamos o plantio de cacau e de banana para garantir o sustento dessas famílias nesse intervalo”, explica Paulo Roberto Bomfim, gerente de comunicação da Michelin. Das Neves Lacerda, de 34 anos, foi beneficiada pelo programa. A agricultora sustenta seus dois filhos com uma renda mensal de aproximadamente R$ 50 num sítio de sete hectares sem energia elétrica. “Para a gente foi maravilhoso, porque antes não sabíamos trabalhar com a terra e agora podemos dizer que somos técnicos”, conta ela. O Banco do Nordeste oferece às famílias um financiamento de R$ 10 mil por hectare, com juros de 1% ao ano e prazo de pagamento de cinco anos, para a lavoura de cacau, e 14 anos, para a plantação de seringueira. “No início pensamos em trabalhar com 500 famílias. Até 2015, a previsão é chegar a quatro mil famílias, que terão uma renda mínima garantida de dois salários mínimos”, diz Bockiau.

O PROJETO DA MICHELIN VAI PRODUZIR AINDA 4,5 MIL TONELADAS DE CACAU

Outra dificuldade encontrada pela Michelin foi a questão da mão-de-obra. Parte dos funcionários do Projeto Ouro Verde moram dentro das terras. Mas o espaço não era suficiente para abrigar todos os empregados, cada vez mais numerosos para atender a demanda da plantação. Foi daí que a Michelin criou o projeto Nova Igrapiúna, um condomínio de casas populares, vendidas por R$ 17,9 mil e financiadas pela Caixa Econômica. “O objetivo é que a mão-de-obra esteja próxima à Michelin”, afirma Silvio Roberto Carvalho, responsável pelo Nova Igrapiúna e gerente de produção da Michelin. Quase cinco anos depois do início do projeto, “que nasceu para resolver um impasse econômico e virou um projeto de desenvolvimento sustentável”, como afirma Bockiau, a Michelin comemora os resultados. Juntos, os 12 médios proprietários têm renda anual de US$ 50 mil. Mais de 400 novos empregos foram criados. A produção de borracha na região aumentou em 50%. São mais de 1,4 mil famílias beneficiadas. E os planos são ambiciosos. Até 2015, a Michelin espera, com um investimento de US$ 25 milhões, aumentar a produção de borracha em 5 mil toneladas por ano, o equivalente a 5% da produção nacional, e 4,5 mil toneladas de cacau – 3% da produção do Brasil. A empresa visa construir mais 250 casas populares e distribuir em larga escala as novas variedades de seringueira.

Fonte: ROBERTA NAMOUR, DE IGRAPIÚNA (BA) – IstoÉ Dinheiro (Edição 560 – 06/2008)

Postado em 08/01/2008