Borracha natural: a bola da vez?

A seringueira é uma árvore de grande porte e ciclo perene pertencente à família Euphorbiaceae. Dentre os gêneros dessa família, destacam-se a mamona, a mandioca e a seringueira. A classificação atual do gênero Hevea compreende 11 espécies de seringueiras, tendo como seu centro de origem a região Amazônica, nas margens de rios e lugares inundáveis de mata de terra firme, ocorrendo preferencialmente em solos argilosos e férteis. A espécie Hevea brasiliensis é considerada a mais importante do gênero por possuir a maior diversidade genética e alta produtividade de látex (borracha natural). Além de ser nativa do Brasil, a seringueira também está presente na Bolívia, Colômbia, Peru, Venezuela, Equador, Suriname e Guiana.

A partir da saída de seu habitat natural, a seringueira passou a ser cultivada em grandes monocultivos, principalmente nos países asiáticos. No Brasil, seu cultivo obteve sucesso nas regiões Sudeste, Centro-Oeste, na Bahia e no oeste do Paraná. Além de fornecer látex e madeira, essa espécie arbórea, de crescimento rápido, apresenta grande capacidade de reciclagem de carbono (1 hectare de seringueira retira aproximadamente 1,4 tonelada de gás carbônico da atmosfera por ano). As plantas podem atingir até 30 m de altura sob condições favoráveis, iniciando aos 4 anos a produção de sementes e, aos 7 anos, em média, a produção de látex.

A borracha natural obtida pelo extrativismo teve seu ciclo de exploração no século 19 até início do século 20, levando a região Amazônica a um período de grande prosperidade econômica. A partir de 1912 esse extrativismo começou a entrar em decadência, devido, principalmente, a dois fatores: a entrada no mercado internacional de borracha oriunda dos países asiáticos, onde o cultivo se fazia intensivo, e o surgimento da doença conhecida como “mal-das-folhas”, causada pelo fungo Microcyclus ulei, comum nas regiões quentes e úmidas.

Além desse fungo, a seringueira está sujeita ao ataque de pragas, principalmente com o aumento da área plantada e a adoção de monocultura em áreas extensivas. Um complexo de ácaros e insetos está associado ao cultivo da seringueira no Brasil, tendo status de praga, dependendo dos seus níveis populacionais. Destacam-se como pragas da cultura os ácaros e os seguintes insetos: mandarová, mosca-branca, cochonilha-do-coqueiro, percevejo-de-renda além de formigas cortadeiras.

Os países asiáticos Tailândia, Indonésia, Malásia, China e Vietnã são os mais importantes produtores mundiais de borracha natural, respondendo por cerca de 90% do total. Atualmente, o Brasil ocupa o nono lugar na produção mundial, com aproximadamente 1,4% do total. Em âmbito nacional, os estados de São Paulo, Mato Grosso, Bahia e Espírito Santo são os principais produtores, sendo São Paulo responsável pela maior parcela da produção nacional, o que lhe confere a condição de principal produtor de borracha natural do Brasil. Somente esse estado possui mais de 14 milhões de hectares aptos à heveicultura.

A importância da seringueira deve-se à qualidade da sua borracha que combina leveza, elasticidade, termoplasticidade, resistência à abrasão e à corrosão, impermeabilidade e isolamento elétrico, bem como capacidade de adesão ao tecido e ao aço. Embora a borracha natural, em alguns casos, possa ser substituída pela borracha sintética, a impossibilidade de se produzir quimicamente um polímero com as mesmas qualidades do natural faz com que ela tenha características únicas, sendo empregada, principalmente, na confecção de luvas cirúrgicas, preservativos, pneus de automóveis e caminhões. A indústria de pneumáticos consome aproximadamente 80% da borracha natural produzida. Desse modo, esse produto torna-se imprescindível na fabricação de uma série de artefatos de suma importância na vida do homem moderno, em praticamente todos os países.

No contexto mundial, projeções indicam uma demanda maior que a capacidade de produção e alguns especialistas estimam que no ano de 2020 o consumo de borracha natural será de 9,71 milhões de toneladas para uma produção de 7,06 milhões de toneladas. Nesse sentido, a renovação de seringais antigos e o incentivo à implantação de novos cultivos, além da manutenção de um preço favorável da borracha natural no mercado internacional, são medidas que devem ser adotadas para suprir esse déficit no Brasil e no mundo.

Há uma sinalização do crescimento em larga escala da heveicultura no Estado do Acre, por meio de incentivos governamentais, com plantio de milhares de hectares em regime de monocultura, que irá promover a modernização de técnicas de cultivo, geração de novos empregos e divisas para o estado. Para tanto, faz-se necessário a implementação de tecnologias (abrangendo aspectos fitotécnicos e fitossanitários da cultura), desde a escolha dos clones mais apropriados à região, passando pelo cuidado com as mudas, até a abertura dos painéis de sangria, visando otimizar a produção, prevenir o ataque de pragas e doenças e aumentar a produção de látex e a rentabilidade dos produtores.

Nesse cenário as instituições de pesquisa e fomento desempenham importante papel na geração de alternativas tecnológicas e na capacitação de extensionistas e produtores rurais. A Embrapa Acre tem contribuído para essa finalidade, desenvolvendo importantes pesquisas para melhoria da cultura no estado, tais como: introdução e avaliação de clones de seringueira, estudos com enxertia de copa e painel, rentabilidade para sistema extrativo de látex e monitoramento de doenças e pragas da cultura e, num futuro próximo, com a micropropagação de mudas de seringueira in vitro.

Fonte: Rodrigo Souza Santos (Embrapa Acre)

Publicado em Seringueira